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quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Um terço dos idosos prefere morar só ! / Claudia Collucci


25/12/2013 - 02h50

Número de idosos que moram sozinhos triplica em 20 anos

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CLÁUDIA COLLUCCI
DE SÃO PAULO
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Aos 89 anos, o militar aposentado Augusto Sonesso esbanja saúde. Vai ao clube diariamente, faz musculação, nada e joga bilhar com os amigos. Viúvo há três anos, tem filho, nora e netos, mas prefere morar sozinho.
Ele faz parte de um contingente que cresce no país: o de idosos vivendo sós.
Editoria de Arte/Folhapress
                                        Entre 1992 e 2012, o número deles triplicou, passando de 1,1 milhão para 3,7 milhões –um aumento de 215%, segundo as PNADs (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), do IBGE.
No mesmo período, a população de idosos acima de 60 anos passou de 11,4 milhões para 24,8 milhões, um crescimento de 117%.
Há várias hipóteses para explicar a tendência, entre elas a feminização do envelhecimento. Entre os idosos hoje morando sozinhos, 65% são mulheres.
"Em geral, elas já criaram os filhos, estão viúvas ou separadas e querem manter autonomia", diz Alexandre Kalache, que já dirigiu o programa de envelhecimento da Organização Mundial da Saúde e preside o Centro Internacional de Longevidade.
Mas mesmo entre os homens, há sinais de uma maior independência. O percentual dos que vivem sozinhos passou de 31% para 35% nas últimas duas décadas.
Segundo Kalache, outra explicação é o fato de que hoje existe uma maior dispersão e fragmentação das famílias, com muitos filhos não morando na cidade dos pais.
Essas mudanças, associadas ao aumento da longevidade, têm levado as pessoas a ver com mais naturalidade a decisão de um idoso morar sozinho, de acordo com Marília Berzins, doutora em saúde pública pela USP e presidente do Observatório da Longevidade.
"O que antes era tido como sinal de abandono, agora é visto como autonomia."
Leonardo Soares/Folhapress
O aposentado Augusto Sonesso, 89, que vive só e utiliza serviços de uma teleassistência para idosos
O aposentado Augusto Sonesso, 89, que vive só e utiliza serviços de uma teleassistência para idosos
SUPORTE
De olho nesse filão, empresas estão investindo em produtos que dão suporte aos idosos que vivem sós.
É a chamada teleassistência, por meio da qual centrais que funcionam 24 horas monitoram o idoso dentro e fora de casa (veja texto ao lado).
Augusto Sonesso é um dos usuários dessas tecnologias. Tem uma pulseira com identificação e alarme e já precisou de ajuda duas vezes, quando sofreu queda de pressão e desmaiou. "Isso me deixa mais mais seguro de viver sozinho", diz ele.
O filho, Eduardo, e a nora, Maria Teresa, moram na Granja Viana, a 20 km do apartamento onde Sonesso vive, no Paraíso (zona sul).
"Em uma emergência, não dá tempo de chegar. Ficamos mais tranquilos sabendo que, se acontecer algo, a empresa nos avisa imediatamente e providencia socorro rápido", afirma Maria Teresa.
SERVIÇOS PÚBLICOS
Mas, segundo os especialistas, há muitos idosos vivendo sozinhos, sem amparo da família e sem condições de bancar assistência privada.
Alguns municípios começam a se organizar para oferecer serviços públicos de teleassistência. A cidade de Joinville (SC), por exemplo, já implantou um e Santos desenvolve um projeto piloto.
"Com o envelhecimento da população, esse tipo de assistência será fundamental. O poder público precisa se organizar para isso, como já fizeram países como Portugal e Inglaterra", diz Kalache.
Em São Paulo, há um projeto da prefeitura de oferecer teleassistência a 10 mil residências onde moraram idosos sozinhos ou que ficam muito tempo a sós porque os filhos trabalham fora.
A proposta, segundo Marília Berzins, autora do projeto, é priorizar idosos acima de 70 anos, com pelo menos três doenças crônicas, como diabetes e cardiopatias.
Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal da Saúde, há um processo de abertura de licitação em andamento para a contratação do serviço em 2014.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Tratamentos fúteis, testamento vital // Claudia Collcci


cláudia collucci

 

28/11/2012 - 03h00

Vivendo a morte


Há pouco mais de uma semana, o arquiteto Oscar Niemeyer iniciou um tratamento com hemodiálise para reabilitar o funcionamento dos rins. Aos 104 anos, ele está internado desde o último dia 2 no Rio, após sofrer uma hemorragia digestiva.
A adoção de um tratamento invasivo em um paciente centenário tem sido bastante questionada e levanta, de novo, a seguinte discussão: quais os limites dos procedimentos médicos a serem adotados no fim da vida?
Ainda que se leve em conta o fato de Niemeyer ser considerado o nosso "highlander" e já ter sobrevivido a episódios piores aos que levaram à última internação, o início da hemodiálise provocou burburinho no meio médico. "É um tratamento fútil, que só vai adiar um pouco a morte", disse, quase em coro, um grupo de médicos reunidos em um simpósio na semana passada.
Ninguém sabe ao certo o quão frágil está Niemeyer. Os boletins médicos dizem que ele se mantém lúcido. E se ele está lúcido, provavelmente tenha concordado com a hemodiálise. E se concordou, ponto final. A vontade do paciente deve prevalecer sempre, como já determinou o Conselho Federal de Medicina em recente resolução.
De qualquer forma, a discussão é pertinente e muito atual. Cresce no país um movimento contrário aos chamados tratamentos "fúteis", que só aumentam e estendem o sofrimento, sem dar qualidade para a vida do paciente. São procedimentos como submeter alguém a uma cirurgia quando já não há chance de cura, ou ressuscitar quem está em estado terminal e teve parada cardíaca, ou ligar alguém a aparelhos quando tudo o que se conseguirá é uma existência vegetativa para a manutenção da vida, muitas vezes por meio de aparelhos e medicações.
O caso da apresentadora Hebe Camargo, morta em setembro após uma longa luta contra o câncer, é emblemático. Diante da piora do seu quadro de saúde, ela preferiu ficar em casa em vez de enfrentar uma nova internação e correr o risco de ser entubada caso sofresse uma parada cardíaca dentro do hospital.
CUIDADOS PALIATIVOS
Muito já se falou sobre os cuidados paliativos, mas ainda há quem resista a eles quando confrontado com uma situação pessoal ou familiar. A proposta dos cuidados paliativos é respeitar o tempo da pessoa morrer. Usar o conhecimento científico e também de outras áreas para que se possa viver da melhor maneira possível até o fim. Sem dor, sem sofrimento.
O fato é que ninguém quer pensar ou falar de morte, tema que se tornou um tabu na nossa sociedade, obcecada pela eterna juventude. A morte tem que ser escondida dentro dos hospitais, longe dos lares.
Os médicos, em geral, enxergam a morte como uma guerra a ser vencida, custe o que custar. O contrário disso, é manter o paciente vivo, custe o que custar. A maioria de nós pensamos assim. E delegamos aos médicos a decisão sobre o que fazer com as nossas vidas quando estamos próximos do fim. A morte nos aterroriza e simplesmente não queremos pensar e nem falar sobre ela. É como se o silêncio nos conferisse alguma espécie de proteção. Ledo engano.
Como diz a médica Maria Goretti, uma das maiores especialistas brasileiras em cuidados paliativos, falar sobre a morte é falar sobre a vida que desejamos ter até o fim. E não precisamos esperar por uma doença grave e incurável ou pelo fim da vida para tomar decisões importantes. Qualquer um de nós pode, por exemplo, escrever e registrar em cartório um "testamento vital", documento no qual determinamos o que permitimos e o que não permitimos no caso de sermos levados a um hospital em uma situação grave.
Recentemente, pensei muito sobre isso ao saber da morte de uma tia muito querida, consumida pelo câncer. Sempre muito independente, ela sabia da gravidade do seu estado de saúde e delegou ao médico a decisão sobre o tratamento. Aos 78 anos e com metástase em vários órgãos, foi submetida a duas sessões cavalares de quimioterapia, que lhe provocaram vários efeitos colaterais, entre eles enjoos insuportáveis e dores por todo o corpo.
Com o rápido definhamento, o médico decidiu interná-la. Uma semana depois, na véspera da sua morte, ela pediu para ir para casa. O médico não autorizou porque seu estado de saúde havia se agravado. Horas depois, ela foi sedada e, em seguida, sofreu uma parada cardíaca. Ainda tentaram reanimá-la, em vão, com desfibrilador. Fiquei pensando que essa mulher, sempre tão cheia de vida, merecia ter vivido a sua própria morte com mais dignidade. Mas, provavelmente, o hospital do interior onde ela foi tratada desconhece os conceitos de cuidados paliativos.
Encerro essa discussão com o trecho de um ótimo artigo da jornalista e escritora Eliane Brum, que serve de reflexão para todos nós: "Não se iluda. Fugindo ou não dela, é a morte que dá sentido à vida. É diante da possibilidade do fim que criamos uma existência que valha a pena. Sem ela, deixaríamos tudo para um amanhã que nunca chegaria, presos a um presente tão repetitivo quanto infinito. Calar a morte é uma burrice, já que inútil, mas é principalmente a perda de uma grande oportunidade para viver uma vida mais viva."
Avener Prado/Folhapress
Cláudia Collucci é repórter especial da Folha, especializada na área da saúde. Mestre em história da ciência pela PUC-SP e pós graduanda em gestão de saúde pela FGV-SP, foi bolsista da University of Michigan (2010) e da Georgetown University (2011), onde pesquisou sobre conflitos de interesse e o impacto das novas tecnologias em saúde. É autora dos livros "Quero ser mãe" e "Por que a gravidez não vem?" e coautora de "Experimentos e Experimentações". Escreve às quartas, no site.